Quando a Lembrança Dá os Ares da Graça

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Olhou o tempo pela janela do quarto. O gelado sol americano, como eles haviam lhe dito, emanava sua luz por entre os galhos da árvore que ficava em frente a grande janela de vidro. Ela sabia que não estava quente, que apesar do sol brilhar intensamente, do lado de fora não era possível sentir o calor.

Colocou os tênis e pegou seu moletom para colocar em cima da blusa que já estava. Se olhou no pequeno espelho que lhe deram, pegou as chaves de casa, o iPod e saiu para a rua. A brisa gélida veio de encontro ao seu rosto, cortando as bochechas sensíveis.

Não tinha rumo, não sabia por onde começar e nem onde terminar. Queria apenas aquele momento, aqueles instantes que ficariam na memória para sempre. Queria decorar a cor do restaurante chinês que ficava de esquina e as placas dos carros estacionados.

Subiu a rua enquanto colocava os fones no ouvido. Queria sentir a dureza do chão de concreto por onde passava, se lembrar das raças de cachorros que passavam por ela com seus donos e suas vidas naquela cidade.

Seguiu em linha reta a avenida pode onde passavam tantos carros, até eles ficarem para trás e só ser possível escutar o som da cidade. Não de carros buzinando e máquinas funcionando, mas o som daquela cidade, tão único.

Jamais esquecer as infinitas tonalidades de cores que as folhas das árvores conseguem atingir em um espaço tão curto de tempo. A música começa a tocar “it´s one little part of my love you can´t take”, ela tira os olhos do chão, ergue o pescoço abaixado, olha para frente. E chora. Seu coração pesa. As árvores, os carros, os restaurantes, as folhas, as casas, os cachorros, as pessoas – a cidade.

Seus pés a levam até uma antiga faculdade, onde os bosques parecem mágicos. Desliza a mãos nas pedras que fazem aquele muro. Sente a frieza daquele mundo.

“it´s one little part of my heart that won’t break”

Ela se vira e volta pelo mesmo caminho. Decorando as casas, as ruas, os carros, os cachorros, os restaurantes, as árvores, os bosques – as gotas da chuva. Enquanto caminha por entre as folhas caídas no chão, enquanto passa por gramas tão verdinhas contrastando com as folhas tão vermelhas, enquanto sente o ar raspar por entre as bochechas. Ela gostaria de receber um beijo daquela cidade naquelas suas bochechas que já estão tão coradas, e rasgadas.

Um beijo de adeus. Decora o gosto do ar, as cores do concreto e a textura das árvores. Decora as sensações que sentia enquanto estava naquela cidade. Os sentimentos que eram capazes de aflorar, o turbilhão de emoções. A liberdade de caminhar sem rumo, com os fones no ouvido e as mãos no bolso do casaco.

Desceu a rua. Entrou em casa. Fechou a porta do quarto. Olhou o céu por entre os galhos daquela árvore que ficava em frente a janela do quarto. O gelado sol americano continuava a brilhar e pelo reflexo do vidro ela conseguiu enxergar que seus próprios olhos também brilhavam.

Um vento forte e quente bateu em seu rosto conforme o carro ia pegando velocidade. A janela do vidro aberta. A outra cidade ia passando como um borrão. Seus amigos rindo.

Enquanto olhava as estrelas ela se lembrou da cor do restaurante chinês, da tonalidade das folhas, dos cachorros e seus donos, das ruas, dos carros, das placas, do concreto, dos bosques, das pedras, dos guarda-chuvas, dos risos, da árvore em frente a janela do seu antigo quarto e do reflexo do vidro. Da sensação de liberdade, do andar sem rumo, da ópera, da cor amarela, da cor lilás, da cor branca.

Ela olhou para o céu cheio de estrelas enquanto o vento batia em seu rosto e movimentava seus cabelos. O vento não cortava, nem a lembrança doía. Recordar era o único momento que poderia ter a paz que sentia enquanto vivenciava outra vida, tão completa, tão sua.

Bateu a porta do carro.

– Adeus.

– Adeus.

– Adeus.

Deu as costas ao carro e sorriu. Ela ainda podia se lembrar dos tons, os cheiros, as texturas – o turbilhão de sensações.

Ainda quero um beijo seu para sarar os cortes que seus ventos fizeram em minha bochecha.

Jamais adeus.

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