Cuidado com Aquilo que Desejas

10… 9… 8… 7…

Eu desejo um sentimento que me tire o ar, reciproco ou não, eu quero alguém que me faça sentir viva.

6… 5… 4… 3..2..1

– Feliz Ano Novo! – Todos gritaram a sua volta. Ela olhava fixo para uma estrela no céu e torceu para que seu desejo se realizasse e que o ano a seguir tivesse mais ventos do que o ar parado do anterior.

Nunca acreditou em desejos que se realizassem, mas estava tão desesperada com aquele vácuo que lhe tomava por dentro que pediu de coração aberto que não importasse as consequências, ela queria alguém que lhe tirasse o modo automático dela de encarar os relacionamentos.

E como todos os desejos feitos com coração puro, tão devotados para que se concretizem o dela também se realizou. Ele chegou igual a um vendaval: lhe tirou o ar, os pés do chão, bagunçou seu mundo, virou a lógica de ponta cabeça até que o coração imperasse nos sentidos. Deixou-lhe bêbada de emoção, sentia tanto que ela própria não sabia o que estava acontecendo.

Era paixão com angústia. Era um bem que lhe fazia mal. Era alegria com lágrimas. Era um vício no ar que lhe faltava, como se a dor pela falta de ar fosse o que ela estivera buscando a vida toda. Aquela dor que faz bem à alma. Por que ninguém havia lhe avisado que com todo o amor vem um pacote imensurável de sentimentos juntos e ela já havia esquecido há muito tempo que toda paixão consome.

Todo vendaval dura pouco, mas o estrago que deixa é grande o suficiente para ser lembrado meses e meses depois. Ele foi o vendaval da vida dela e focada no quanto sentia, ficou cega para o que acontecia.

Se a estrela que escutou o desejo daquela moça de branco naquele dia de festa pudesse falar lá de cima, talvez ela diria que a moça não pediu um amor eterno. Ela só pediu alguém para lhe reviver e de bônus a estrela até pudesse lhe dar uma dica “cuidado com aquilo que desejas”.

Ela já não tinha mais os beijos dele para ela, mas o toque dele imperava nas lembranças e não importava o quanto havia passado e o quão confusa ele havia a deixado, não tinha nada que ela pudesse fazer para aquele sentimento parasse de consumi-la.

Dentro do quarto escuro na noite que amparava a casa com as lágrimas caindo pelo travesseiro, ela pedia a volta do vácuo, implorava para que os sentimentos que queimavam no âmago fossem embora, mas de nada adiantava. Talvez no fundo ela soubesse que aquela angustia de sentir de novo fosse melhor do que não sentir nada e estrelas não concretizam desejos dúbios pela metade.

Vendavais são perigosos, pois chegam sem serem avisados, vão embora com mais discrição do que quando chegaram e voltam sem serem convidados. Ela sabia do perigo que poderia enfrentar, do quão contra a natureza dela mesma iria se fosse ela a chamar primeiro o vendaval. Era um jogo que ela sabia que corria o risco de ser a única a se machucar com as faíscas de madeira que poderiam correr soltas pelos ventos fortes quando ele chegasse. Escondida entre os muros caídos do primeiro estrago ela saiu e acenou.

E sem esperar nem a cortesia de um segundo do jeito que manda as regras de etiqueta de uma boa conquista, como se estivesse ávido para encontrar aquela moça novamente, tão diferente das que ele costumava desarrumar os cabelos, o vendaval chegou pela segunda vez.

A brisa dos ventos fortes passaram por entre as bochechas rosadas da moça, que sorriu, abriu os braços e fechou os olhos como se gritasse “venha”. Lembranças a atingiram em cheio. Os ventos ficaram mais fortes, mas algo de diferente aconteceu da segunda vez. Intrigada com a avidez daquele que lhe parecia tanto com um vendaval, a moça abriu os olhos castanhos e antes de desaparecer ele lhe disse para que ela o procurasse. Com medo de ver mais uma vez sua paixão se desvanecer bem na sua frente, a moça fechou os braços e correu para debaixo da fortaleza que ela mesma construiu com os muros caídos, feitos do estrago da primeira vez que o vendaval passou.

Assustada, ela não o viu ir, mas ele foi. Os ventos desapareceram e com a ida dele, ela continuou construindo com cada muro quebrado sua fortaleza, pois sabia que aqueles pedaços quebrados faziam parte do jogo que ela mesma havia começado.

Ela não o entendia por completo, mas conhecia a intuição dela, então quando ele chegou pela terceira vez ela já sabia que ele viria. Depois de meses, ela acordou no dia que havia programado a volta dele e de dentro de uma fortaleza intacta com muros fortificados, esperou.

Uma mensagem fez o celular ficar iluminado e mesmo com todo o preparo, o coração dela pulou em um ritmo acelerado. Vendavais vem sempre com surpresas, às vezes com uma chuva que deixa a grama mais verde no outro dia outras vezes com trovões que rimbombam e chacoalham a mais forte das fortalezas. Do lado de fora da fortaleza que ela havia construído, ele lhe perguntava se ainda era possível ele passar os ventos fortes por entre os cabelos dela. Debaixo de toda a frieza daquelas pedras que ela empilhou, um sorriso apareceu.

A moça correu para a janela para responder que sim! SIM! Que ele sempre – sempre – poderia passar os ventos por entre ela. Pegou no trinco de aço que ela mesma havia criado e tentou destravar a janela.

E nada.

Tentou outra janela e outra. Sem realizar o que estava construindo, a moça havia ficado presa na própria fortaleza. O vendaval demonstrou que era dela se ela ainda o quisesse, mas como toda ventania ele precisava ir embora, mas não sem antes deixar um rastro para que ela o perseguisse.

A estrela, pesarosa por ver a moça chorando dentro da gélida fortaleza que ela mesma havia criado, desceu do céu azul escuro para dentro daqueles muros fortificados. A moça, angustiada, correu para o colo da velha estrela que a acolheu:

– Entendo seu medo, criança. Seus anseios, seus machucados. Mas você pediu pela vida e eu a lhe dei. Se eu posso te aconselhar, lhe diria para ver um lado que pouco enxerga: este vendaval não está lhe dando só destruição, pare de ver só os muros caídos.

E assim, a estrela lhe contou que ela deixaria uma porta destrancada caso a moça quisesse correr atrás do vendaval. Avisou, porém, que a moça poderia encontrar mais destruição no caminho e faíscas de madeira poderiam ainda corta-la e machuca-la, mas que ela poderia encontra-lo esperando no final. A porta não ficaria aberta para sempre e a estrela lhe avisou que ela teria até a meia noite depois de longos sete dias para decidir e depois, não importasse se a moça estaria para dentro ou fora da fortaleza, a porta assim como o caminho até o vendaval seriam apagados para sempre.

10…9…8..7…

Ela olhava fixada para a foto dele sorriso distraidamente.

6…5…4…

Fechou os olhos.

3…2…1.

Era meia noite do sétimo dia. Lágrimas caiam pelo travesseiro, um choro sufocado pela angústia das dúvidas que sentia. De dentro do quarto da fortaleza, ela ouviu a porta se trancar com um clique e o barulho de pedras caindo do céu, desfazendo todo o caminho que lhe levaria até ele.

Por mais que ela gostasse de sentir aquilo que ele lhe oferecia e agradecesse à estrela pelo presente, existem paixões que nos fazem construir muros tão fortes que quando nos dão o poder de escolha nós não conseguimos enxergar o caminho de dentro da fortaleza e conselhos não passam por dentro das paredes frias, nos deixando surdos. A moça preferiu a fortaleza acolhedora do que o medo do desconhecido. No fim, ela entendeu que jamais se deve fazer um pedido as estrelas sem antes estar preparado para o que irá cair do céu.

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4 comentários sobre “Cuidado com Aquilo que Desejas

  1. É impressionante a capacidade da sua escrita de nos transportar pra dentro da história e sentir como se fosse com a gente…triste, profundo e belo. Amo seus textos. Beijos

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