A Linha Tênue entre o Desapego e o Desrespeito

copyright: freepik
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Tenho seriamente percebido a falta de respeito entre as pessoas, eu até iria dizer “as pessoas de hoje”, mas não vivi mais que uma vida para saber se no século 19 as pessoas já haviam se esquecido deste tipo de respeito.

O respeito de que eu falo não é aquele que você pega um papel caído de uma pessoa qualquer do trabalho, ou aquele jantar em família que sua mãe lhe obrigou a ir ou mesmo aquele em que você se levanta do banco do ônibus para uma pessoa mais velha sentar.

O respeito a que me refiro é dentro de um relacionamento. Analisando tudo que tenho observado, as pessoas perderam a noção do que é se relacionar com as outras. O desrespeito começa aí. Hoje, seres humanos acham que a satisfação só é colocada na mesa com o contrato de namoro assinado, sem essa assinatura no contrato do relacionamento sério é como se a pessoa pudesse fazer o que bem entendesse, porque para ela “está no seu direito de ser livre”.

Só que as pessoas muitas vezes só lembram de que possuem direitos e se esquecem de que junto com os direitos existem os deveres.

Eu tenho o direito de fazer o que quiser com quem eu quiser, mas eu tenho o dever de respeitar tudo que eu fizer com cada indivíduo que eu quiser. Como o yin e o yang, o direito e o dever também andam juntos.

O mundo anda se comportando como se o respeito só precisasse ser dado na frente de um indivíduo. As pessoas realmente estão levando o ditado “o que os olhos não veem o coração não sente” como um sério modo de vida.

E isso é extremamente sério. É um problema tão recorrente na vida que as pessoas as levam como se fosse supérfluo. Como essa conversa abaixo:

“Menina, sabe o Guilherme que beijei sábado. Então, acredita que descobri que ele tem namorada?” – diz Gabi, sentada no banco da temakeria, olhando para Érica.

“Não brinca, guria” – exclama Érica.

“Verdade. Pobre menina” – diz Gabi.

“Nossa, coitada dessa menina. Esquece esse menino. Parte para outra” – Afirma Érica, abanando a mão para Gabi.

“Acha. Vou deixar o contato dele aqui caso eu fique depressiva se o Gustavo me deixar no vácuo” – Completa Gabi, e as duas caem na risada.

Vemos aqui um caso de uma conversa normal entre duas amigas e que podemos ver três problemas sérios acontecendo.

1 – a menina aparenta achar que a única não respeitada na situação é a namorada de Guilherme.

2- Gabi e Érica acham que estão em alguma espécie de poder, acima de todos os outros indivíduos e claramente acima de Guilherme e Gustavo, porque acham que estão no direito de usar Guilherme e Gustavo quando bem entenderem.

3 – A falta de respeito na situação foi encarada como algo recorrente na vida dessas pessoas e muito fácil de ser superado.

É só eu que tenho vontade de sacudir as pessoas para ver se ainda é possível clarear a mente humana para algo tão desprezível na qual o mundo está virando?

Por que claramente as três pessoas que se relacionaram na situação foram desrespeitadas. Gabi desrespeitou tanto Guilherme como a namorada dele. Desrespeitou a namorada, pois o direito dela de ser livre a faz pensar que o único culpado na relação é Guilherme e que ela, no direito de ser livre, tem o poder de ficar com quem quiser independente se o outro indivíduo tem outra pessoa ou não. Desrespeitou Guilherme, pois o respeito vem de dentro de você, algo que as pessoas praticamente anularam na vida, que respeito não se dá só pra quem merece. No entanto, Guilherme desrespeitou a namorada e a Gabi. E tem o Gustavo, na qual Gabi também está desrespeitando, porque provavelmente ele, no vácuo que deu nela, também a esta desrespeitando com outra pessoa.

É como se fosse um ciclo vicioso.

Uma roda gigante de relacionamentos que se auto desrespeitam. Tudo porque um acha que está no direito de fazer qualquer coisa com a outra pessoa.

E tem aqueles ainda que acham que Guilherme está desrespeitando mais do que Gabi ou Gustavo, porque Guilherme foi o único na situação que assinou o contrato selado de relacionamento sério.

E é aí que eu digo que essas pessoas não respeitam nem a si próprias, porque, meus caros, não existe isso de mais respeito ou menos. Respeito é igual roupa tamanho único, feito em apenas uma medida.

Eu disse ali em cima que o respeito, ou a falta dele, na qual baseio esse texto, é um respeito dentro de um relacionamento e eu disse isso porque aquela pessoa que leva a avó no médico é a mesma pessoa que chega em casa e manda mensagem para a número dois enquanto a número um oficial está no trabalho. A mesma pessoa que paga fielmente o plano de saúde da filha de quatro anos é aquela pessoa que envia uma mensagem para a número dois, três e quatro dizendo que vai viajar no fim de semana e não diz que é junto com a número um oficial. O mesmo individuo que tem 4.000 amigos no facebook, 500 curtidas em um status e que é lembrado por ser simpático e prestativo no trabalho, é aquela mesma pessoa que dormiu com a Cristina no sábado e desapareceu no domingo.

Não é só porque alguém aparenta ser respeitoso em comunidade, que ele é de fato alguém que respeita um indivíduo, mas por fazer o bem para a comunidade ou para a família, essa pessoa acha é uma pessoa boa nesse mundo.

Vou contar um segredo: se você desrespeita o Pedro, você cara amiga, desrespeitou o Pedro e por desrespeitar alguém você automaticamente não é aquela pessoa boazinha que você alega ser quando ergue as mãos pro alto e pergunta “por que isso está acontecendo comigo?”

Não estou afirmando que o ser humano tem capacidade para ser 100% bom, porque não tem. Todos nós temos luz e trevas dentro da gente. O que eu digo é que: Nós temos capacidade de perceber quando fazemos algo que desrespeita alguém. Temos a capacidade de pedir desculpas, e pensar “puts, pisei na bola com essa pessoa”, de falar “olha, quero ser franco com você, é melhor não nos vermos mais”.

E por termos a graça de entender o respeito e tudo o que ele engloba, nós temos a capacidade de humanizar os atos ruins.

E é isso que anda faltando: a humanidade no ser humano.

É Raquel entender que só ter uma conversinha boba com Gustavo enquanto namora Giovani, está sim desrespeitando o namorado. É Gabriel entender que se ele está “de rolo” com Jéssica, ele está sim desrespeitando tanto a Jéssica quanto a Fernanda, aquela menina que ele vê a cada três meses. É Jéssica entender que aceitar a liberdade de Fernando é sim estar desrespeitando ela mesma. É Jorge entender que ele não pode sumir depois de beijar e transar com uma menina diferente a cada semana porque ele está sim desrespeitando cada uma das meninas na qual ele se relacionar.

É entender que relacionamento não é só papel assinado e aliança no dedo, que querer ser livre não te da o direito de fazer o que bem entender com quem quiser e o mais importante: que respeito não se dá só frente a frente.

É Raquel avisar Gustavo que não acha certo as conversas picantes que eles tem, pois está em um relacionamento com Giovani. É Gabriel assumir Jéssica. É Jéssica se dar o respeito e não deixar ser usada. É Jorge tentar fielmente conhecer alguém de verdade.

É o mundo entender que relacionamento, e acho que aqui já entendemos que a palavra é muito mais que um contrato assinado, não é um tipo de parque de diversão.

É o ser humano entender que o amor não se dá só com declaração de amor no facebook, é dizer “não” para todas as outras pessoas que aparecer porque você tem alguém que ama esperando sua ligação no fim do dia. É entender o significado de “conhecendo alguém” e tentar de fato conhecer aquela pessoa sem ter 14 pessoas na lista de espera.

E isso tudo só vai acontecer quando entendermos que o respeito está dentro de nós.

As pessoas comportam-se como se respeito fosse dado só para quem mereça e esquecem que na verdade o respeito primeiro precisa partir de você mesmo, porque primeiro vem o dever de se respeitar para depois ter o direito de se ser respeitado. Você só tem o direito de dar a quem merecer, quando tiver o dever de respeitar sem ver a quem.

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