Ele Te Acha uma Puta

Sexy_Mouth

 

Gabriela era fascinada por livros. Desde os nove anos vivia enfurnada dentro de seu quarto com um livro nas mãos. Introvertida, Gabriela sempre cresceu com o mesmo grupinho de amigas. Quieta, Gabriela sempre mais ouviu do que falou. Sempre.

O futuro de Gabriela estava selado, ela seria aquela garota que poucos conhecem de verdade, um mistério para muitos, mas ela nunca pediu por atenção. Ela fugia de qualquer crédito.

Não é uma surpresa se o narrador desta história contar que Gabriela, na sua adolescência, começou a namorar e que este relacionamento durou uma década de vida.

Gabriela nunca foi de conhecer pessoas novas, gostava de ficar enclausurada em sua bolha social: amigos, família e namorado. Uma grande bolha que fez Gabriela nunca ter a necessidade de dar uma olhadinha em como o mundo estava e o que as pessoas faziam umas com as outras. Ela era feliz dentro da sua bolha.

Certo dia, Gabriela deixou de ser feliz. Cansada de ficar na mesma posição, ela se espreguiçou e uma parte da bolha na qual vivia se rompeu.

Seu companheiro de dez anos saiu caminhando para fora da bolha, Gabriela se sentiu mais leve e lhe dando um amistoso tchau, sentiu-se feliz novamente. A bolha havia ficado menor, mas o bruto rompimento de sua rotina a fez com que ficasse aberta.

O ar que entrava na bolha era novo e lhe dava calafrios.

Gabriela ainda era aquela menina quieta, que amava ler, fazia coleção de seriados e que amava filmes antigos como E o Vento Levou. Que fazia maratona de O Senhor dos Anéis e Star Wars com os amigos em um feriado qualquer e que jogava Guerra dos Tronos de tabuleiro como se estivesse na batalha dos sete reinos. Que saia na rua de rabo de cavalo e que adorava ficar de pijama em casa o dia inteiro no domingo.

Ela, tão na dela, poderia fechar aquela abertura que estava lá, rodeando-a com um ar novo, mas decidiu construir naquela abertura da bolha uma janela, colocar a cara para fora e respirar ares novos.

Desacostumada, Gabriela sentiu o ar lhe cortas as bochechas. Percebeu que havia crescido e que passou o tempo que deveria ter tirado para ganhar experiências, dentro da segurança de sua bolha.

Gabriela não se deu por vencida e prometeu em uma celebração de Ano Novo que correria atrás de um tempo que ela mesma lhe havia tirado.

O ar ricocheteava no rosto e nos braços, deixando marcas.

Até que um dia palavras mansas, sorriso calmo e um abraço seguro ergueram Gabriela. E lhe disseram:

“Doe-me seu coração e lhe darei o mundo”

Como forma de provar suas palavras, ele lhe deu uma caixa com os chocolates favoritos de Gabriela.

Segurando seu coração, tropeçou nos cacos expostos da ruptura da bolha chegando até a cortar os pés, bamboleou e quando ergueu os olhos seu herói havia sumido.

Gabriela culpou sua falta de experiência e socou as paredes da bolha que lhe fez tanto mal.

Nos 26 anos de vida de nossa personagem, ela só havia se relacionado com três meninos, da qual um deles foi aquele que já mencionamos nesta breve história. Todos eles bons meninos, de corações simples e puros.

Então, não podemos culpar Gabriela por não enxergar – não ainda – o vilão da nossa história.

Com os pés machucados, Gabriela volta para sua bolha, sentada no chão atrás da janela ainda aberta, ela chorava.

Até que certo dia, seu herói ressurge. Discreto, lhe envia uma mensagem que passa pela janela aberta e cai no colo de Gabriela.

“Teremos então uma segunda chance?”

Gabriela abre a mensagem e a lê. Junto, cai um pedaço de algo que ficou preso na primeira vez que eles se viram. Ela abraçou aquele pedaço de algo tão importante para ela e sentou na janela, pronta para pular.

Porém, antes um aviso é dado:

“Só pule se puder doar seu corpo”

Gabriela, ainda na janela, disse para seu herói que isso não seria possível. Não naquele momento. Ela queria ver seu herói, mas que não era igual as pessoas do mundo que ela vivia, que se entregavam a todos sem animo, sem vida, sem amor. Apáticos.

Gabriela tinha vida, tinha animo e, se o seu herói deixasse, poderia lhe mostrar o amor. Mas não podia entregar seu corpo sem lhe entregar a sua alma.

Enrolada nas palavras que não tinha costume de usar, Gabriela com medo de seu herói sumir, olhou para as mãos gesticulando meias palavras, confusas e sem sentido. Quando olhou para frente, seu herói havia sumido.

Voltou para dentro da bolha, encarando a janela aberta, pensativa: Que tipo de herói era aquele?

Desconfiada, Gabriela continuou com a janela aberta. Os ares rebatiam fortes em sua face, mas já não era um efeito surpresa. Gabriela ainda procurava por aquele que viria com o verdadeiro abraço seguro. Entretanto, o coração, apesar de receoso, ainda pertencia ao seu herói.

Afinal, caros leitores, não é a razão que aponta por quem vamos nos apaixonar, não é mesmo?

Então, em mais um dia comum na história de nossa personagem, o herói aparece novamente. Dessa vez, Gabriela não tenta nem ultrapassar a janela, fica dentro de sua bolha, com as mãos no suporte de madeira da abertura, encarando seu herói.

Só que dessa vez, o herói de Gabriela não sabia que ela, rápida aprendiz, já estava conseguindo dançar a melodia dos ares novos que entravam pelas frestas de sua janela.

Do lado seguro, Gabriela, sem tocar nas mãos macias de seu herói, dançou a melodia que ele cantava, sem perder o seu mais valioso item – seu caráter.

Gabriela ainda era aquela menina tímida, que gostava de ler, que assistia séries e amava filmes. Que abraçava os amigos que agora lhe eram sua família. Gabriela, a menina que cresceu, mas que continuou mais a ouvir do que falar. Gabriela, aquela que – como uma raça em extinção – só se doava se fosse por inteiro.

Pela primeira vez, Gabriela soube lidar com seu herói. Discreta e calma, ela pisava onde ele queria que ela pisasse. Pois dessa vez, Gabriela não queria entregar o coração ao herói, primeiro ela queria enxerga-lo.

E o nosso vilão finalmente dá as caras nesta história.

Nosso vilão veio mascarado com palavras mansas, sorriso calmo e abraço seguro.

O vilão de Gabriela queria que nossa personagem lhe entregasse seu corpo, oco. Sem alma, sem vida, só a carne viva para que ele usa-se como bem entendesse.

Gabriela parou de dançar e, com vida, tentou explicar que com ela tal putrefação não aconteceria, mas que poderia abrir a porta para que ele entrasse e pudessem conversar sobre o mundo.

Mas vilões não compreendem nada mais do que aquilo que almejam e tendem a virar monstros horríveis quando descobrem que não terão aquilo que desejam.

Gabriela viu seu herói se transformar em vilão e viu este se transformar em um monstro horrível, nojento e asqueroso. Um monstro tão vil que seu odor fez com que nossa personagem, pela primeira vez desde que a bolha foi rompida, fechar sua janela.

Nossa personagem segurou as janelas fechadas com força e, por algumas horas, precisou se lembrar de quem era.

Precisou entender quem ela era e não quem ele dizia que ela era.

E não quem ele achava que ela era.

Precisou aceitar que nunca irá entender o porquê de, com tanta gente oca no mundo, ele foi atrás das últimas da espécie que ainda tem alma.

Talvez Gabriela não soubesse que vilões são assim, sempre irão atrás dos raros, para que possam transforma-los em ocos, em iguais.

Talvez um dia, pessoas raras iguais Gabriela, não eram tão difíceis de achar.

Talvez o mundo seja assim, feito de vilões que sugaram as almas e as transformaram em vazios.

Talvez um dia, nosso vilão houvesse tido alma, mas foi transformado em vácuo e, como uma herança, precisasse retirar outras almas de corpos.

Gabriela ainda era aquela moça, séria, quieta, tímida, que gostava de ler, colecionava séries, amava filmes, tratava os amigos como família. Gabriela ainda tinha alma, caráter, gostava da vida e não havia desistido de encontrar o abraço seguro.

Gabriela entendeu que ela sabia quem ela era e que não deixaria vilão algum tirar sua essência.

Gabriela era a heroína.

A heroína dessa história.

Nossa heroína.

A heroína dela mesma.

 E heróis encaram os ventos, mesmo os ruins, apagam vilões e salvam.

Abrindo a janela mais uma vez, Gabriela, a heroína, salvaria ela mesma. Gabriela era igual a mim ou você. Pois todos nós somos nossos próprios heróis em nossas vidas.

Os vilões sempre irão aparecer, Gabriela sabia disso agora. O que importava era que ela, Gabriela, havia virado heroína de sua própria história.

Heróis não fazem o mal, mas suas simples presenças assombram todos os vilões. Por que se dói sentir que o único desejo dele é o seu vazio, tenha a certeza que dói também ser o vazio.

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2 comentários sobre “Ele Te Acha uma Puta

  1. Texto lindíssimo, amiga! (Nem vou contar que chorei no final, tá! – de verdade) rsrs
    Nunca é tarde para recomeçar e buscar enfrentar novos ares. Às vezes, com a dor que sentimos, a vida quer nos ensinar a não ter medo e aceitar enfrentar qualquer coisa. Porque quando (achamos que) não temos mais nada a perder, não temos medo. Mas a vida só ensina pra quem a vive e não pra quem fica de dentro da janela assistindo. A gente só aprende quando o vento corta o rosto e os cacos machucam os pés. Infelizmente a gente nunca sabe quando um vilão está disfarçado de herói e normalmente são os vilões que sabem melhor como conquistar a heroína. Texto lindo, inspirador de muita reflexão e emocionante!
    Amei:
    “Afinal, caros leitores, não é a razão que aponta por quem vamos nos apaixonar, não é mesmo?”
    “Mas vilões não compreendem nada mais do que aquilo que almejam e tendem a virar monstros horríveis quando descobrem que não terão aquilo que desejam.”
    “Precisou entender quem ela era e não quem ele dizia que ela era. E não quem ele achava que ela era.”

    1. Socorro! Quem quase chorou com esse comentário agora fui eu!!!!!! Obrigada, amiga! Temos realmente que colocar em nossa consciência que nunca é tarde para recomeçar, independente do tanto de tapa na cara que iremos levar dessa vida!

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